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Prudentes como serpentes

“Espertos como serpentes – manual de sobrevivência no mercado de trabalho” (Ed. É Realizações) é um livro peculiar, intrigante e transformador. Na melhor tradição de Aristóteles, a obra propõe uma reflexão ética sobre a racionalidade das ações no cot

     “Espertos como serpentes – manual de sobrevivência no mercado de trabalho” (Ed. É Realizações) é um livro peculiar, intrigante e transformador. Na melhor tradição de Aristóteles, a obra propõe uma reflexão ética sobre a racionalidade das ações no cotidiano das relações sociais, tomando o universo corporativo como metonímia de grupos relativamente fechados e autônomos, como a família, a universidade e o escritório, em que a cooperação se vê ameaçada pela competição e confusão dos papeis hierárquicos de comando e obediência. Mas o aspecto inovador dessa abordagem não é apenas a renovação da ética clássica das virtudes aplicada ao cotidiano profissional – o que A. Havard também realiza com excelência em “Virtudes e liderança – a sabedoria das virtudes aplicada ao trabalho” (Ed. Quadrante) -, mas a articulação com a teoria mimética de René Girard, cujos conceitos fundamentais de “desejo mimético” e “bode expiatório” são explorados para elucidar o “complexo de gestão”, que torna a relação funcionário-chefe problemática, assim como o mecanismo de culpabilização pela “fofoca”, como administração invejosa de crédito e culpa.

     Marcado pela linguagem coloquial e exemplos da cultura norte-americana corrente, o livro apresenta uma ética experimental, aplicável e acessível ao público leigo. Contudo, engana-se quem pensa que se trata de mais um volume que grassa o gênero “autoajuda”, baseado no “pensamento positivo” (“wishful thinking”) e na busca do sucesso individual. Na verdade, o livro se apropria do apelo direto e da aparente superficialidade da “autoajuda” motivacional para apresentar uma articulada teoria antropológica da origem imitativa do desejo humano e da culpabilização alheia como falta de reconhecimento da participação no papel do acusador, como diagnóstico da causa do conflito social em geral. Como terapia moral, a obra propõe a sabedoria da tradição monástica milenar, baseada na dimensão de autoconhecimento e autocontrole franqueada pelo trabalho.    

     Principal contribuição do livro, o “complexo de gestão” é a “doença” que distorce a relação triangular de funcionário-chefe-trabalho. Num primeiro momento, o chefe é o modelo a ser imitado, o tutor que orienta e determina o trabalho. Porém, com o aprendizado e a progressiva conquista da independência do funcionário, o chefe torna-se o seu “modelo-obstáculo” de crescimento e autonomia, emitindo ordens ambíguas, como “tome iniciativa” e “não passe por cima de mim, não faça nada sem que eu o autorize”. Se o funcionário incompetente prejudica o chefe, o excepcional e superprodutivo pode ameaçar a sua autoridade profissional, ou a imagem superior que forjou de si pelo posto que ocupa na hierarquia do trabalho. A equação dessa tensão depende do tenso equilíbrio entre os extremos: delegação demais gera descontrole, e gestão excessiva sufoca. Invariavelmente, haverá dissonâncias, atropelos e ressentimentos nessa relação complexa, sobretudo pela cadeia de “complexos de gestão” justapostos numa empresa.   

     Diante da inevitável frustração de uns pelo sucesso de outros, ativa-se o “mercado negro” de informações, despontando espontaneamente os rumores e a fofoca no ambiente de trabalho. Esta é considerada “a moeda da culpa e do crédito”, capaz de movimentar os polos da utilidade e visibilidade que aguçam a rivalidade dos funcionários entre si e com chefes. Ora, como a satisfação geral é raramente alcançada, o frustrado considera-se vítima e torna-se acusador, sacrificando um “bode expiatório”, supostamente responsável pelo seu fracasso. Denegrir a imagem e o capital social de um rival bem-sucedido confere coesão a um grupo de invejosos ressentidos, reunidos em torno da desmistificação de um “ídolo”.

     A terapia do “complexo de gestão” e da culpabilização alheia é “o ascetismo social” dos monges, que desvinculam o valor do trabalho do reconhecimento público que ele promove, concentrando-se na dimensão moral de exercício das virtudes da constância, fortaleza, humildade e cooperação. Na ética católica, que os autores relacionam com a penetrante análise de Tomás de Aquino sobre a lei natural, na “Suma Teológica”, o trabalho constitui uma tríade inseparável de sobrevivência, sucesso e serviço, isto é, uma satisfação das necessidades materiais, uma forma de autorrealização e uma contribuição para o bem comum. O “atletismo espiritual” do trabalho é converter toda a energia de competição e rivalidade para a admiração positiva dos modelos e a autossuperação a serviço dos outros.

     O título e a epígrafe do livro remetem à aparente ambiguidade do ensinamento de Cristo, ao exortar seus discípulos, enviados como ovelhas entre lobos, a serem “prudentes como as serpentes e inocentes como as pombas” (Mt10,16). Sem inocência, a prudência torna-se esperteza, malícia e ardil; sem prudência, a inocência torna-se ingenuidade e fragilidade.

     Grote e McGeeney escreveram uma obra lúcida, para que o homem do século XXI aprenda a conquistar o sucesso profissional sem aderir ao cinismo, redescobrindo a sabedoria da tradição cristã.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 16.julho.2017.

 

 







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