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Redescobrindo a Filosofia

Sem essa dialética que articula presente e passado, existência e pensamento, as grandes teorias filosóficas são reduzidas a uma doutrina estática, com suas palavras-chave e conceitos fechados, que logo se transformam em clichês.

“Todos os homens, por natureza, tendem ao saber”. Assim começa a “Metafísica” de Aristóteles, fundamento do pensamento ocidental, tanto o teológico quanto o científico. O homem é um ser racional, porque, além das percepções dos sentidos, ele pensa e fala, articulando em conceitos e classificações o que experimenta com o corpo. Além das faculdades sensoriais, que compartilha com os animais irracionais, o homem tem faculdades mentais, como a imaginação, a memória e a inteligência. Por isso, sem exceção, todos pensam, ainda que em níveis diferentes de profundidade, extensão, perseverança e rigor, sendo que os filósofos desfrutam de uma inclinação particular a essa atividade intelectual, dedicando-se ao conhecimento e à sabedoria, insaciavelmente, ao longo de toda a vida.

Como explica Pierre Hadot, em “O que é a filosofia antiga?” (ed. Loyola), a primeira característica da Filosofia nascente na Grécia é que ela é uma atividade em que o homem se engaja por inteiro, transformando seu pensamento e, por conseguinte, seu comportamento. Por essa razão, Sócrates tornou-se o incomparável herói da tradição filosófica, ao evidenciar, até o extremo da morte, que a filosofia é uma sabedoria de vida, uma tentativa de justificar racionalmente as ações e instituições humanas, bem como os fenômenos naturais, tendo no diálogo o seu método originário, na confrontação viva de ideias que permitem alcançar a verdade pela depuração das opiniões imprecisas e errôneas que a turvam.  

Grande parte da rejeição atual à Filosofia se deve a um desencontro inicial, a uma apresentação estéril e não raro traumática, normalmente no âmbito de uma disciplina escolar ou universitária dispersa em temas desarticulados. Distanciados da vida intelectual pela profissionalização pragmática e massificação didática, alguns professores ensinam respostas prontas, mas não a difícil arte da indagação. Sem modelos miméticos que reflitam, com a própria existência, o amor ao conhecimento e o empenho constante em refiná-lo e expandi-lo, não há pedagogia filosófica autêntica, mas a reprodução de cacoetes e automatismos intelectuais que a mascaram, como explicita Platão, em colorido dramático inigualável, na sua obra-prima, “O Banquete” , provavelmente o maior elogio à Filosofia, em todos os tempos.

Nesse contexto de falência da educação filosófica, não se entende “a grande conversação”, a que se refere Mortimer Adler em “Como pensar as grandes ideias a partir dos grandes livros da civilização ocidental” (ed. É Realizações), que os intelectos travam há milênios acerca do sentido da vida, da verdade, da justiça e da beleza. Sem essa dialética que articula presente e passado, existência e pensamento, as grandes teorias filosóficas são reduzidas a uma doutrina estática, com suas palavras-chave e conceitos fechados, que logo se transformam em clichês. Os filósofos são tidos por lunáticos desocupados que se entretêm com palavras abstratas e vagas, sem nenhum conteúdo substancial e sem nenhuma relação com a realidade imediata. Ao invés de estimular o pensar, partindo de problemas existenciais reais, morais, políticos, estéticos e religiosos, esse contato disciplinar estimula o pensamento coisificado, como um conteúdo de informações a ser memorizado e repetido, para ser imediatamente esquecido e descartado depois das avaliações institucionais. Se a crise do ensino conteudístico e fragmentário afeta a assimilação das ciências em geral, muito mais grave é o seu dano às disciplinas humanistas como a Literatura, a História e a Filosofia, que dependem da admiração, da curiosidade e da espontaneidade individual, assim como de um tempo subjetivo de reflexão e maturação de questões que se impõem ao homem, convidando-o a meditá-las e revisitá-las sem pressa, e desconfiando das respostas definitivas.

Numa época de suspeita intelectual irrestrita, que anuncia o fim da Filosofia, a dissolução da verdade no relativismo de jogos de linguagem e poder, e numa cultura em que a busca pelo autoconhecimento filosófico está sitiada pela simplificação psicológica e religiosa da autoajuda e pelo ilusionismo da informação digital imediata, como redescobrir a Filosofia e envolver-se nessa atividade intelectual edificante e exigente? Há várias maneiras de fazer isso, mas duas atitudes são essenciais. A primeira é sentar-se à mesa com os grandes filósofos, contextualizando os seus períodos históricos e percebendo o que ultrapassa a sua época. O pensamento sempre se insere numa tradição, marcada por continuidades e rupturas, progressos e decadências. Devem-se buscar os nexos entre os filósofos e as correntes deles procedentes (platonismo, aristotelismo, agostinismo, tomismo, cartesianismo, kantismo, hegelianismo e nietzscheanismo, por exemplo), mas principalmente articulando cada pensamento com uma forma concreta de vida moral e intelectual. 

A segunda atitude imprescindível é estudar, a fundo, as antifilosofias, que promovem “o suicídio do pensamento”, na significativa expressão de Chesterton, em “Ortodoxia” (ed. Ecclesiae). Ao delinear o primeiro traçado completo do filósofo, Platão o distingue dos intelectuais relativistas que o falseiam, os retóricos sofistas que utilizam o pensamento com fins predominantemente persuasivos e polemistas, e não cognitivos. No mesmo gesto, para recuperar a Filosofia na modernidade cientificista, Eric Voegelin analisa as ideologias dogmáticas que a neutralizam pelo uso artificial da linguagem, afastando-se da realidade ao querer transformá-la, e não conhecê-la (“Reflexões autobiográficas”, ed. É Realizações).

Embora obscurecida e rivalizada pelas ciências sociais, cuja importância não pode ser minimizada, mas nem por isso absolutizada, a Filosofia atrai, renovadamente, como a Hadot, Adler, Chesterton e Voegelin, os dispostos ao desafio da liberdade intelectual, que não se rendem à imposição ideológica da caverna do seu tempo histórico.     

 

Publicado no Jornal O Liberal de 19.junho.2016.

 

 








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