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Sacrifício perfeito

Se o sacrifício arcaico é sempre do “outro”, exigindo sempre novas imolações rituais, o sacrifício de Jesus é um dom de si, que se renova de forma incruenta no altar da Missa.

Em todas as religiões, um dado antropológico elementar se repete de forma invariável: o sacrifício, a oferenda à divindade de uma vítima – seja humana, animal ou vegetal – por súplica, dívida ou gratidão. Em “A violência e o sagrado” (ed. Civilização Brasileira), René Girard interpreta a origem da cultura humana a partir desse ato fundador do sacrifício, como violência canalizada contra uma vítima, que é divinizada por instaurar a ordem social, com interditos, leis e hierarquia, a partir de um tempo e espaço sagrado. Nessa explicação geral, os ritos representam e comemoram esse assassinato apaziguador e os mitos são as narrativas que o relembram, escondendo, porém, a inocência da vítima sacrificada.

Segundo esse antropólogo francês, autor da teoria transdisciplinar mais compreensiva das ciências humanas atuais, o que distingue o cristianismo no quadro das tradições religiosas é a superação do mito pela revelação da inocência da vítima, em cuja perspectiva são narrados os Evangelhos. A revelação cristã evidencia, antropologicamente, o mecanismo vitimário da eleição arbitrária de bodes expiatórios e, psicologicamente, o potencial persecutório de cada homem, sempre pronto a culpar e apedrejar “os outros”, resistindo a reconhecer a si mesmo como culpado.

Se o sacrifício arcaico é sempre do “outro”, exigindo sempre novas imolações rituais, o sacrifício de Jesus é um dom de si, que se renova de forma incruenta no altar da Missa. Como o dom ofertado da pessoa de Jesus é divino e definitivo, o seu sacrifício é perfeito, dispensando os anteriores e convidando todos a se unirem a esse mesmo sacerdócio de consagração a Deus da própria vida. Ora, esse rito apresenta uma dimensão ética, de autossacrifício, de oferta de si à humanidade, de renúncia à violência e à vingança, consoante a lógica do amor e do perdão, de dar a outra face e buscar a trave no próprio olho. O cristianismo é a proposta de superação do egoísmo pelo sacrifício pessoal voltado ao próximo, o que interrompe a cadeia mimética de rivalidade e revanche.

Como se sabe, o sacrifício de Cristo começa na Última Ceia, quando Ele entrega seu corpo e sangue nas espécies de pão e vinho, ordenando aos seus discípulos que façam isso em sua memória (cf. Lc. 22:19). Antes, no discurso da Sinagoga de Cafarnaum, Cristo anuncia: “Eu sou o pão vivo descido do céu. (...) minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue verdadeiramente bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele.” (Jo.6:51;55-56). Por isso, desde os primórdios, o rito essencial do cristianismo, que atualiza o sacrifício da vítima sagrada e inocente, é a Missa, a Ação de Graças a Deus com que cada cristão entra em comunhão com Cristo e seu Corpo Místico, a Igreja. Descrita nos Atos dos Apóstolos (At.2:42; 20:7), a primeira comunidade cristã reúne-se, no primeiro dia da semana, para a “fração do pão”, no contexto do ensinamento dos apóstolos, da comunhão fraterna e das orações. Um dos primeiros e mais influentes convertidos a essa comunidade, Paulo de Tarso descreve a Eucaristia da mesma forma aos coríntios (I Cor. 11:23-27). Como demonstra Jungmann, em “Missarum Sollemnia – origens, liturgia, história e teologia da Missa romana” (ed. Paulus), o rito da Missa, com a Liturgia da Palavra e Eucarística, já se observa no século II , na prática relatada por Justino de Roma, filósofo convertido ao cristianismo, na sua I Apologia.

Ao longo dos dois milênios de cristianismo, o sacrifício eucarístico da Missa tornou-se o centro da civilização cristã, irradiando a sua significação teológica à cultura como um todo, no projeto de formação de uma sociedade fraterna. Do ponto de vista cultural, basta mencionar a grande música derivada do canto litúrgico gregoriano, que culmina nas grandes missas de Bach, Mozart, Beethoven e Schubert, para reconhecer a centralidade da Missa na estética ocidental. Do mesmo modo, o desenvolvimento da arquitetura e das artes plásticas das igrejas, os templos eucarísticos, se deve ao desafio estético de plasmar visualmente o mistério da encarnação de Deus, celebrada a cada Missa. Parte significativa da grande arte de todos os tempos concerne diretamente às  realizações extraordinárias das catedrais góticas, com seus vitrais policromáticos que interagem com a luz do sol, e das basílicas renascentistas, barrocas e neoclássicas, com o esplendor de seus ícones, mosaicos, afrescos, pinturas e esculturas.   

O Brasil participa dessa rica tradição espiritual e cultural cristã, como se pode perceber no XVII Congresso Eucarístico Nacional (www.cen2016.com.br), que celebra os 400 anos de evangelização na Amazônia, a começar com a fundação da cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará, em 1616. Com seu Simpósio Teológico e variados Workshops, e com a celebração dos ritos Maronita, Armênio, Ucraniano, Greco-melquita e Romano antigo (Tridentino), os quais comprovam a unidade e universalidade da Igreja Católica, esse evento apresenta oportunidade ímpar de (re)descobrir o sentido da Missa, muitas vezes neutralizado pela formação doutrinal insuficiente ou saturado pela repetição passiva e desatenta. Por outro lado, a riqueza da cultura católica pode ser apreciada na exposição das Vestes Sagradas, que contribuem para a pedagogia litúrgica do culto, assim como pelas excursões da programação “Pelos caminhos da história”, que percorrem o centro histórico e as igrejas tombadas, que testemunham o patrimônio artístico paraense, contando com a dramaturgia do padre Cláudio Barradas.

Ademais, há as celebrações solenes na Catedral, que se erigiu sobre a primeira Paróquia da cidade, de 1617, e que contou, no século XIX, com os traços inconfundíveis de Landi. Além de suas notáveis pinturas, a Liturgia da Catedral é enlevada pela “Schola Cantorum” e seu órgão francês “Caville Coll”. Fundada no século XVIII, essa companhia musical lança, em precioso encarte artístico e textual, o CD “Fazei isto em memória de mim”, que grava, pela primeira vez, a Missa Solene de Nossa Senhora de Belém, composta por Dom Plácido de Oliveira, em 1953.

A força de uma tradição espiritual e cultural é a renovação dinâmica e a assimilação das obras imorredouras do passado, como o mistério eucarístico da morte de que brota a vida.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 14.agosto.2016.

 







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