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Túnica inconsútil

A função cultural do rito é perpetuar na memória coletiva e individual um ato sagrado originário, pela renovação litúrgica que instaura um tempo e um espaço solenes, radicalmente distintos do cotidiano.

Segundo o relato evangélico, a túnica com que Cristo sofreu o sacrifício da Paixão era inteiriça, sem costura, tecida de uma só peça, de alto a baixo. Por essa razão, os soldados que o despiram para crucifixão não a rasgaram, como fizeram com as demais roupas, mas a sortearam inconsútil, sem emendas ou rasgaduras (Jo 19, 23-24). Cristo trajava essa vestimenta nobre, porque celebrou a Páscoa com seus discípulos na noite anterior à sua crucifixão. Nessa ocasião derradeira, ele instituiu a Eucaristia, entregando sua carne e seu sangue nas espécies de pão e vinho, ordenando aos apóstolos que fizessem isso em sua memória (Lc 22, 19-20).

Desde então, nesse rito fundamental dos seguidores de Jesus, a Missa é celebrada por um sacerdote que consagra o corpo de Cristo na primeira pessoa, utilizando as mesmas palavras sagradas pronunciadas por ele. A essa máxima dignidade litúrgica corresponde os paramentos sacerdotais, que desenvolveram uma rica tradição estética, como se observa na exposição “Vestes Sagradas”, sediada no Museu de Arte Sacra de Belém, contíguo à Igreja de Santo Alexandre, até o próximo dia 9 de setembro de 2016, que se destaca entre as atividades do XVII Congresso Eucarístico Nacional.

Nessa exposição, contemplam-se preciosos paramentos da Coleção D&A, Decorações e Artesanatos Litúrgicos, numa interação entre arte litúrgica, teologia e história. São mais de vinte casulas dos séculos XVII a XX, provenientes de países andinos sul-americanos, que sublinham a criatividade e originalidade do nosso povo ao herdar a tradição cristã milenar. Por outro lado, as peças registram a incorporação nessa tradição universal de elementos arábicos, como a estilização arabesca predominante na maioria das vestes, e chineses, como na casula negra para exéquias, com motivos florais.

A função cultural do rito é perpetuar na memória coletiva e individual um ato sagrado originário, pela renovação litúrgica que instaura um tempo e um espaço solenes, radicalmente distintos do cotidiano. Para tanto, mobilizam-se todos os meios culturais possíveis, como a arquitetura do templo, os ícones, pinturas, esculturas e vitrais que o ornamentam, as palavras pronunciadas, o incenso, a música sacra e as vestimentas sacerdotais. Nesse contexto, a arte sacra cristã compõe-se de todas essas criações estéticas voltadas à figuração sensível da realidade espiritual da encarnação de Deus, principalmente no interior do Rito Eucarístico, em que Cristo se faz liturgicamente presente na pessoa do sacerdote. As vestes sacerdotais contribuem para revelar o que se vê com o espírito, a renovação do sacrifício de Cristo na Eucaristia. No culto cristão, a beleza não é um fim em si mesmo, mas um ícone no qual reluz o mistério da criação e da redenção do homem, instaurando um estado de contemplação, adoração e ação de graças a Deus. 

Para isso, concorre toda a simbologia cristã presente nas casulas, como o Coração de Cristo e de Maria, o Peixe, o Pelicano, o Cordeiro, a Pomba e a Árvore da vida. Do mesmo modo, as cores dos paramentos designam os tempos litúrgicos que celebram e renovam, no contexto da pedagogia ritualística, os acontecimentos centrais da história da salvação de Cristo, com o roxo do Advento e Quaresma, o branco e/ou dourado da Páscoa e Natal, o verde do tempo comum, o preto dos funerais e o vermelho da Paixão e Pentecostes.

Nos paramentos eucarísticos, os símbolos da iconografia cristã são estilizados com pérolas, pedrarias e metais, com complexas ramagens e flores, sobretudo a rosa mística, símbolo mariano por excelência. Normalmente, os forros são em cetim, seda ou tafetá. No século XIX, desenvolveu-se a técnica dos tecidos adamascados, com tramas de fios dourados ou prateados, que recebiam bordados e monogramas, como IHS (“Jesus Hominum Salvator”) e MA (Maria, mãe de Deus).

A arte têxtil é uma das formas mais antigas de artesanato. Além das vestimentas, a técnica da tecelagem é responsável por tapeçarias, redes, bolsas e outros artefatos cotidianos. Superando a mera utilidade social, as vestes sacras apresentam ornamentos variados, como bordados e rendas, relevos com enchimento de algodão ou lã e papel cartão plano, geralmente sobre veludo. Como se lê no encarte didático da exposição (disponível online em: http://www.deaparamentos.com.br/eventos/exposicao-vestes-sagradas/livro_vestes-sagradas), de autoria do curador Percival Tirapeli, “as bordas mais elaboradas eram feitas com canutilhos em fio de ouro e fieiras com pontos diversos e aplicações de vidrilhos, fixados com canutilhos em ouro e ladeados por lantejoulas em fio, e cordões em ouro bordados com motivos padronizados.”

Com uma linha do tempo e diversas explicações históricas e artísticas, a exposição enriquece não apenas a fé do visitante, mas a cultura de quem articula a religião com a sociedade e o contexto histórico, atentando para o patrimônio artístico e para a elaborada técnica de confecção dos fios entremeados desse refinado patrimônio sacro da humanidade.  

 

Publicado no Jornal O Liberal de 21.agosto.2016.







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