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Um homem feliz

A sabedoria grega clássica reconhece que só podemos aquilatar a felicidade de um homem no fim de sua vida, quando ele assimila a iminência da morte.

Quem esteve, nos últimos anos, com Dom Vicente Zico, aquele venerável ancião, franzino, de passo lento, olhar doce e voz suave, se pergunta: o que realiza e satisfaz o homem? A figura mansa e “bem-aventurada” de Dom Zico, cujo falecimento em maio marca este ano de 2015, convida à reflexão sobre o que é a vida feliz, questão principal da Filosofia Moral, também chamada de Ética.

A sabedoria grega clássica reconhece que só podemos aquilatar a felicidade de um homem no fim de sua vida, quando ele assimila a iminência da morte. É por essa razão que, no início da “República” de Platão, obra do século IV a.C., Sócrates questiona o velho Céfalo como ele se sente no momento em que se aproxima, cada vez mais e irremediavelmente, da morte. Com a segurança da senectude, o homem de cabelos brancos assegura sentir-se livre da vassalagem das paixões e conciliado com todos, sendo a justiça praticada ao longo da vida recompensada pela tranqüilidade e estabilidade emocional.

Mas o que se percebia com clareza no arcebispo emérito de Belém não era apenas uma imperturbabilidade estóica, de quem está imune às tempestades das comoções violentas e arrebatadoras. Era mais do que isso. D. Zico transpirava a paz de Cristo Ressuscitado, a certeza do triunfo sobre a morte. Essa paz vem do repouso do coração em Deus, paz que Santo Agostinho, bispo da cidade africana de Hipona no século V, considera a tranqüilidade na ordem.

Criando um novo gênero literário, a autobiografia, e concebendo um método filosófico de busca da sinceridade total, motivada pelo diálogo com um interlocutor onisciente, o próprio Deus, Agostinho escreveu “As Confissões” exatamente como investigação espiritual e psicológica sobre a essência da felicidade e plenitude humana. Se ninguém discorda que todo homem busca a felicidade, princípio fundamental da Ética, há considerável divergência sobre os bens que realmente atendem aos anseios humanos.

A época de Agostinho, um dos mais influentes filósofos e teólogos da história, apresenta alguma semelhança com a nossa, pelo irredutível pluralismo de concepções de felicidade, ao ponto de se negar a sabedoria. Esse clima cultural cético, que demite o valor da busca da sabedoria e da verdade (Filosofia), suscita um relativismo de indiferença moral e um conformismo com qualquer tipo de vida, por indigna que seja. Diante do politeísmo do Império Romano e da multiplicidade de heresias que ameaçam a unidade da fé cristã – principalmente o maniqueísmo e o arianismo  -, Agostinho encontrou-se assediado de dúvidas e incertezas, como qualquer um que, hoje em dia, se questione sobre a validade das propostas morais concorrentes.

Antes de se converter ao catolicismo, Agostinho aderiu ao maniqueísmo, enquanto superava duas fontes ilusórias de felicidade: a honra e o prazer. Ele desprezou a honra de seu sucesso profissional como professor de retórica pelo reconhecimento da vaidade e exterioridade que a caracterizam. Do mesmo modo, transcendeu o prazer erótico pela experiência da transitoriedade que o tornava mais carente e insaciável do que satisfeito.

Só então, Agostinho percebeu que o Deus revelado por Jesus Cristo é o Sumo Bem, o topo da hierarquia dos desejos humanos e que, por isso, pode ordenar seu apetite, vontade e inteligência. Só um ser eterno pode saciar o anseio de amor infinito que todo homem traz dentro de si e que, em vão, direciona a realidades fugazes, como o erotismo, a fama, o dinheiro ou o poder, sempre incapazes de preenchê-lo. A conquista desses bens aparentes só aguça a sua consistência efêmera e ressalta a sua incapacidade de acalentar o coração humano. O que tornou a doutrina moral cristã tão atraente a intelectuais pagãos como Agostinho é a sua coerência com a natureza humana, a sua vocação de realizar espiritualmente o homem, revelando-lhe o verdadeiro objeto de sua busca incessante: o Bem eterno e imutável no qual repousar e a partir do qual hierarquizar as prioridades da vida. Daí o moto célebre do começo das “Confissões”: “Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti.”

Ao se converter à Igreja de Cristo depois do estudo da Ortodoxia cristã, Agostinho torna-se um dos intelectuais mais importantes para a compreensão da paz que coroa a vida feliz. A vida e o pensamento do bispo de Hipona certamente ajudam a compreender a beatitude do oitavo arcebispo de Belém, o sereno Dom Vicente Zico. 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 27.dezembro.2015.







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