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Um marco cultural

Durante os séculos de história cultural, o acesso à obra de Platão sempre foi considerado um pressuposto indispensável para a formação integral do homem, no seu nível afetivo, moral e intelectual.

Em sentido pedagógico, a Cultura é o cultivo consciente das faculdades superiores do homem. Toda sociedade elege modelos de excelência para serem reproduzidos, pelas instituições de educação, para as próximas gerações. Em tempos de crise da cultura, reflete-se sobre esses padrões de excelência, no que eles têm de ultrapassado, servindo de contraexemplo para o progresso cultural, e no que têm de permanente, constituindo um clássico a ser emulado. No célebre livro “Paideia – a formação do homem grego” (ed. Martins Fontes), Werner Jaeger afirma que “À estabilidade das normas válidas corresponde a solidez dos fundamentos da educação. Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de insegurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer ação educativa. Acontece isto quando a tradição é violentamente destruída ou sofre decadência interna.”. Num mundo grego em decadência, Platão compôs a obra fundamental da educação filosófica ocidental, no conjunto dos mais de trinta diálogos que chegaram até nós da Antiguidade, alguns reputados apócrifos ou duvidosos.

Durante os séculos de história cultural, o acesso à obra de Platão sempre foi considerado um pressuposto indispensável para a formação integral do homem, no seu nível afetivo, moral e intelectual. O esforço para traduzi-lo, primeiro ao latim e depois para a línguas vernáculas, tornou-se um imperativo civilizacional da mais alta importância pedagógica. Nesse sentido, os tradutores são enaltecidos pelo mérito de plasmarem em outra idioma a imaginação poética e o pensamento lógico-conceitual de um dos escritores mais criativos e profundos da história. Até o empreendimento monumental de Carlos Alberto Nunes (1897-1990), o Brasil não tinha acesso ao “corpus platonicum”. A fim de contribuir para o engrandecimento cultural de seu povo, esse notável humanista, médico legista de profissão, dedicou a sua vida ao cultivo autodidata das letras clássicas, o grego e o latim, e das letras anglo-saxônicas, o inglês e o alemão, traduzindo a épica de Homero e Virgílio, o teatro de Shakespeare, Hebbel e Goethe e o drama filosófico de Platão.   

A tradução de Carlos Alberto Nunes é um marco cultural porque permite a atualização do pensamento platônico no sentido pedagógico de formação humanista do homem que reflete sobre a beleza, a bondade e a verdade. Permite a inserção no grande diálogo socrático que constitui a Filosofia, uma interlocução entre pessoas presentes a partir dos grandes livros que as orientam nas sendas da reflexão rigorosa e metódica, como bem demonstrou G.Steiner, em “A lição dos mestres” (ed. Record).

Mas, para que uma obra cultural como a de Platão sobreviva à corrosão do tempo e atravesse os milênios, ela depende não apenas de tradutores, mas de estudiosos que a divulguem e expliquem e editores que a ponham em circulação. Nesse contexto, ressalta o papel da Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa) e de Benedito Nunes, a quem Carlos Alberto Nunes, seu tio, confiou o legado da tradução platônica. O conjunto dos manuscritos generosamente cedidos à UFPA reúne, além de todos os diálogos, as cartas e os escritos apócrifos. Sob a coordenação do Professor Benedito Nunes, quatorze volumes foram lançados entre 1973 e 1980, dos quais três foram reeditados entre 1986 e 1988, além de outros sete, que voltaram a circular entre 2000 e 2007. A republicação completa da obra, em coleção independente composta de dezoito volumes enriquecidos com o texto grego, foi iniciada em 2011, sob a coordenação dos Professores Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro, tendo Plínio Martins Filho, da Editora da Universidade de São Paulo, como editor convidado. Esse empreendimento editorial se tornou referência indispensável para os estudos universitários brasileiros no campo da filosofia, das ciências humanas e da cultura acadêmica em geral.

A atual reedição da tradução de Carlos Alberto Nunes, revisada e bilíngue, que agora compõe uma coleção própria, Diálogos de Platão, é parte de um trabalho de aperfeiçoamento das ações da Editora da UFPA, integrado a iniciativas mais amplas de qualificação dos projetos acadêmicos da Universidade Federal do Pará. Em 2011 vieram a público os três primeiros volumes da coleção: O Banquete, Fédon e Fedro. Dotadas de grande depuração literária, essas obras dramatizam momentos decisivos da vida de Sócrates, a celebração do amor e da poesia e seu enfrentamento com a morte. No ano de 2015, chegam aos leitores os volumes 5, 6, 7 e 8: Apologia de Sócrates e Críton; Laques e Eutífron; Cármides e Líside; e Primeiro Alcibíades e Segundo Alcibíades. Com a edição da obra-prima de Platão, República, neste ano de 2016, a Coleção alcança um de seus pontos altos, revelando um teatro filosófico que pensa por imagens, sobretudo a instigante alegoria da Caverna, que provoca indagações como: e se nossa vida social não passasse de um teatro de sombras, manipuladas pelos intelectuais sofistas que condicionam nossos pensamentos, palavras e ações? E se a alma estiver presa a um corpo que limita seu poder de conhecimento, contaminando-o com as percepções sensíveis? E se não tivermos acesso direto à realidade, mas apenas às opiniões socialmente construídas sobre ela? É possível libertar-se dos preconceitos sociais e das opiniões correntes acerca das virtudes e do bem? Platão nos ensina que há uma dimensão mais profunda da realidade a ser explorada. Precisamos estar intelectualmente vigilantes para discernir a aparência da realidade.

 







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