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Uma clave polifônica do poético

Benedito Nunes ocupa um lugar fronteiriço na crítica literária brasileira, pois o seu comentário crítico atinge muitas vezes questões filosóficas.

Publicado em A Clave do poético, de Benedito Nunes, organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2009.

Prêmio Jabuti de Literatura, categoria Crítica Literária, de 2009.

Para mais informações sobre este livro, visite a seção Edições.  

 

Uma clave polifônica do poético

Victor Sales Pinheiro

 

“Uma literatura acentuadamente crítica e reflexiva

como a do nosso tempo pede o refinamento

e a agudeza do instrumental crítico”

Benedito Nunes

(O que está acontecendo com a literatura

brasileira hoje, entrevista a Clarice Lispector)

 

A Clave do Poético reúne ensaios de vários momentos da extensa atividade intelectual de Benedito Nunes, autor de reconhecida importância em nosso cenário cultural, sobretudo pela originalidade e profundidade com que aproxima literatura e filosofia. 

Pela pluralidade de assuntos que aborda – da teoria literária à hermenêutica filosófica, pe.Vieira a Rilke –, e pelos diferentes formatos que apresenta – estudos, prefácios, resenhas e conferências -, este livro pode ser considerado bastante representativo do pensamento do autor.

Heterogêneos, os ensaios constantes neste volume independem uns dos outros. Foi feita a opção, contudo, de organizá-los tematicamente, a fim de proporcionar a sua leitura combinada, consciente da dificuldade de classificar os escritos de Benedito Nunes, pela movimentação que os caracteriza.

De fato, este volume traz escritos que apresentam os principais traços da obra de Benedito Nunes, e que aparecem reunidos na versatilidade do gênero ensaístico. No autor de uma das obras de referência de nossa bibliografia filosófica, Introdução à filosofia da arte (Ed.Ática, 5ªed., 2005), há sempre um esforço didático, que nos permite segui-lo nas suas articulações intelectuais.

A “atual perplexidade quanto ao modo de ser e ao destino da literatura”, que o autor reconhece sentir em Conceito de Forma e Estrutura literária, motiva-o a compreendê-la pela sua inserção na linha de pensamento de que participa. Por isso, os seus textos normalmente trazem tentativas de reconstituição histórica das idéias[1], a fim de sustentar a reflexão que esta perplexidade incita, como se verá, por exemplo, em Ocaso da literatura ou falência da crítica?. Literatura reflexiva de um lado e crítica histórico-filosófica de outro: eis os nexos que formam este livro.

Benedito Nunes ocupa, portanto, um lugar fronteiriço na crítica literária brasileira, pois o seu comentário crítico atinge muitas vezes questões filosóficas. No ensaio que abre esta coletânea, Meu caminho na crítica, ele reflete sobre sua atividade híbrida, de crítico literário e filósofo. Com efeito, não lhe falta estímulo de fundamentação teórica de tal aproximação, como se pode ver em dois de seus livros de maior fôlego, Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger (Ed. Ática, 1986) e Hermenêutica e Poesia: o pensamento poético (Ed.UFMG, 1999).

Valendo-se da porosidade inerente à ensaística, o texto de Benedito Nunes adquire muitas vezes a tonalidade de uma crônica. Ao descrever sua amizade com Mário Faustino e Max Martins, suas conversas com Haroldo de Campos e Clarice Lispector, ele testemunha uma fecunda interação intelectual entre a literatura e a crítica, “um pólo de tensão com a escrita dos escritores”, cuja ausência é identificada como o sinal da crise dessa atividade em Crítica literária no Brasil, ontem e hoje.

Quando Mário Faustino lhe diz: “Minha experiência tende agora no sentido de ‘coisificar’ o mais possível as palavras, reificá-las usando todos os instrumentos para fazer do poema uma natura naturans, como tu dirias” (A poesia de meu amigo Mario), é porque vê em Benedito Nunes um interlocutor filosófico, capaz de ajudá-lo a entender a sua intuição poética. Clarice Lispector o entrevista a fim de compreender a situação na qual a sua própria literatura está inserida (O que está acontecendo com a literatura braseira hoje). Haroldo de Campos dedica-lhe um poema filosófico como resposta às reflexões que o crítico-filósofo lhe suscitou (Encontro em Austin).

O autor dialoga também com outros críticos, ao discutir o estatuto epistemológico da crítica literária, no prefácio de Mímesis e Modernidade, de Luiz Costa Lima (Prolegômenos a uma crítica da razão estética) e ao comentar O enigma do olhar, de Alfredo Bosi (A Invenção Machadiana).

Consciente de que não há crítica literária sem perspectiva filosófica, Benedito Nunes esforça-se, como filósofo, para compreender a base teórica subjacente à crítica, razão pela qual se tornou um interlocutor tão lúcido na compreensão das obras que analisa. Este é o motivo também da solidariedade entre as duas partes que compõem este livro, a análise teórica e o estudo de autores, por ser a sua crítica também uma reflexão filosófica sobre a literatura. Em outras palavras, a sua crítica é o diálogo que as aproxima, como “conhecimento interpretativo das obras”, como hermenêutica[2].

Mas como se dá este diálogo entre filosofia e literatura? Sem querer antecipar as densas páginas que se seguem, convém apresentá-las sublinhando a linha de pensamento que articula a obra de Benedito Nunes.

Benedito Nunes é, antes de tudo, um grande leitor; encontra na leitura uma atividade vital, a partir da qual impulsiona seu pensamento. Como Clarice Lispector observou, viveu-a e viveu-se nos livros dela, interpretando-os, por isso, tão profundamente (O que está acontecendo com a literatura brasileira hoje). Ele reconhece que o mesmo se deu com Guimarães Rosa, outro autor de sua preferência: “Absorvia-o na sua obra, que me absorvia”.[3]

O nexo que une o crítico ao leitor já nos foi explicado por Antonio Candido, para quem “toda crítica viva – isto é, que empenha a personalidade do crítico e intervém também na sua sensibilidade – parte de uma impressão para chegar a um juízo...”[4] Mas o que faz de Benedito Nunes, além de leitor, um crítico literário?

Como se lerá em O trabalho da interpretação e a figura do intérprete na literatura, “a tênue película da consciência crítica e histórica” que separa o leitor do crítico torna-o também filósofo, enquanto hermeneuta que “traduz para o discurso conceptual e reflexivo o discurso dos textos literários, a fala que eles encerram, reveladora de nós mesmos e do mundo”.

Fator distintivo de sua ensaística, a crítica literária de Benedito Nunes eleva-se, portanto, como hermenêutica, à especulação filosófica, problematizando a questão do ser e do dizer nos autores que analisa, concedendo-lhes a dignidade de pensadores. Suas reflexões sobre Eliot, Rilke, Carlos Drummond e Haroldo de Campos, poetas-pensadores, como os denomina, podem ser lidas como verdadeiras reflexões filosóficas.

É a partir da fenomenologia de Husserl, e seus desdobramentos em Heidegger, que Benedito Nunes relaciona literatura e filosofia, como ele nota em Conceito de Forma e Estrutura Literária: “A fenomenologia contribuiu para a compreensão da obra literária, colocando-a justamente sob o foco do conhecimento da experiência humana em suas diferentes modalidades.”

Por esta carga filosófica que comporta, a obra literária é insuscetível de ser encerrada em uma interpretação que se queira definitiva: “Filosoficamente, o objeto literário permanece inesgotável”[5]. Por isso a recorrência de alguns autores na obra de Benedito Nunes, a começar por Clarice Lispector, a quem dedicou os ensaios de O dorso do tigre (Ed. Perspectiva, 1969; 3ª ed., Ed.34, no prelo) e o livro O Drama da linguagem (2ªed., Ed. Ática, 1995). Aqui, Benedito Nunes retoma-a em mais dois ensaios; valiosas tentativas que reforçam o sentido de ensaiar, de buscar.

Certos temas também são constantes em sua obra, como a questão da tradução, tratada em O dorso do tigre, no caso de Guimarães Rosa, aqui é recuperada em Drummond: poeta anglo-francês, A poesia de meu amigo Mário e Que isto de método... Neste último ensaio, prefácio ao estudo e versão portuguesa da poesia de Safo de Lesbos, de autoria de Joaquim Brasil Fontes, Benedito Nunes problematiza a traduzibilidade da poesia no âmbito da hermenêutica filosófica, ressaltando a interpenetração de mito e poesia. Desta capacidade da literatura de plasmar mitos, pela força poética da linguagem, o autor já tratara em De Sagarana a Grande Sertão:Veredas (em Crivo de Papel); aqui este tema é retomado em Volta ao Mito na ficção brasileira. No ritmo intervalar da ensaística, o pensamento de Benedito Nunes revela uma sólida harmonia. 

Nesta coletânea, que pretende abranger um amplo panorama da obra do autor, constam também ensaios que registram a atenção de Benedito Nunes aos literatos que nasceram ou viveram na sua região, na seção Conterrâneos. Ao relacioná-los às fontes da tradição nacional e ocidental que os animam, ligando Dalcídio Jurandir a Proust, Mário Faustino a Jorge de Lima, o crítico assume “a relevância histórico-cultural” que lhe cabe, pois “julgar uma obra individual é, antes de mais nada, assinalar-lhe a posição no conjunto de que participa. (...) E o que a crítica julga, em cada caso, no ciclo de civilização a que pertence a experiência literária, representada, refletida ou modificada pela obra, é, afinal, toda a literatura” (Conceito de Forma e Estrutura Literária). Exatamente por isso, Benedito Nunes não se refere à “literatura amazônica”, mas à literatura “da Amazônia”, a fim de sublinhar a procedência da arte literária sem recair nos localismos de qualquer perspectiva regionalista.[6]

Nos textos a seguir, Benedito Nunes mais uma vez reforça os propósitos que o estimulam, como crítico literário e como filósofo. Num mesmo ato reflexivo, na transversalidade do diálogo, perfaz a crítica “como ato de permanente e renovada leitura”[7], e realiza a  filosofia como “uma aventura do pensamento diante da Literatura.”[8]

O leitor poderá passear a partir da inspiração do momento ou em atenção às constantes articulações do autor, como, por exemplo, a que liga a arte de Affonso Ávila (O Jogo da Poesia) à Semana Nacional da Poesia de Vanguarda (Trinta anos depois), o Max Martins de “Poema” (Max Martins, mestre-aprendiz) ao humorismo de Drummond (Carlos Drummond: a morte absoluta).  O repertório é vasto e dá uma boa dimensão do horizonte alargado do autor. No conjunto, há um panorama diversificado da literatura moderna e contemporânea, pensada também nos seus aspectos históricos e filosóficos. Uma clave polifônica do poético, que afina o pensamento no diálogo literatura e filosofia.

 

 


[1] Este pendor historiográfico evidencia-se com a leitura de ensaios como O pensamento estético no Brasil (em Modernismo, Estética e Cultura, organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro, Ed.34, no prelo) e Historiografia literária do Brasil (em Crivo de Papel, Ed.Ática, 1998).

[2] Benedito Nunes, Literatura e Filosofia, em No tempo do niilismo e outros ensaios, Ed. Ática, 1993, p.197.

[3] Benedito Nunes, Guimarães Rosa em Novembro, Suplemento Literário do jornal O Estado de Minas Gerais, 23/11/1968.

[4] Antonio Candido, Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 5 ªed., São Paulo, Ed. Itatiaia, Edusp, 1975, p.32.

[5] Benedito Nunes, Literatura e Filosofia, em No tempo do niilismo e outros ensaios, Ed. Ática, 1993, p.198.

[6] Cf. a entrevista de Benedito Nunes concedida a José Castello, Benedito Nunes ensina o caminho de volta, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 27/01/1993.

[7]  Benedito Nunes, De Sagarana a Grande Sertão: Veredas, in Crivo de Papel, São Paulo, Ed. Ática, 1998, p. 261.

[8] Benedito Nunes, Literatura e Filosofia, No tempo do niilismo e outros ensaios, Ed.Ática, 1993, p.199.







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