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Virtude e excelência moral

A virtude pressupõe toda a ordenação da vida, a disciplina dos apetites, e a fortaleza da vontade, assim como prudência na eleição dos fins buscados e no equilíbrio entre os extremos que desvirtuam o escopo moral da ação.

 

Se os modernos, sobretudo a partir de Kant, pensam a ética a partir o conceito de liberdade, os clássicos, guiados por Aristóteles, a compreendem a partir da noção de virtude. Esta consiste na consecução máxima de um fim, na ação eficiente capaz de realizar o mais plenamente possível uma faculdade, alcançando o bem almejado, gerando o estado de realização e bem-estar denominado felicidade. Aristóteles parece afirmar uma banalidade quando define o bom músico como quem toca música boa. Mas, com isso, ele demonstra que a virtude alcança tanto o sujeito moral, quanto o objeto de sua ação. O agente se beneficia da sua ação porque, com ela, dinamizou uma potência, cultivou uma faculdade que o torna mais humano e mais feliz. Por isso, uma tradução possível para o conceito grego de felicidade ou bem-aventurança, “eudaimonia”, é florescimento.

Mas uma ação isolada não basta para tornar o homem virtuoso, é necessário o hábito, a prática reiterada, a disposição constante de ânimo para atingir o bem. Ninguém nasce virtuoso; ser bom exige prática, treino, habituação, boa educação e esforço permanente. Em uma palavra, caráter. E isso pressupõe toda a ordenação da vida, a disciplina dos apetites, e a fortaleza da vontade, assim como prudência na eleição dos fins buscados e no equilíbrio entre os extremos que desvirtuam o escopo moral da ação.

Talvez o postulado filosófico mais conhecido da Ética a Nicômaco, que se tornou proverbial na cultura ocidental, é o de que a virtude está no meio, no equilíbrio dinâmico entre o excesso e a falta. Essa justa medida deve ser aquilatada pela prudência na situação particular de cada um. Assim, em relação ao sentimento de medo, a coragem é a virtude que figura como meio-termo entre a ousadia (coragem excessiva) e a covardia (coragem deficiente); em relação ao prazer, a temperança equilibra-se entre a desmesura e a insensibilidade; em relação à ira, a calma evita os extremos da agressividade e da apatia; no trato social, a amabilidade distingue-se da bajulação e da grosseria; no âmbito do uso dos bens e dinheiro, a generosidade entremeia o esbanjamento e a avareza; no que concerne à ambição, a magnanimidade intercala a vanglória e a mediocridade; em relação à vergonha, a modéstia situa-se entre o descaramento e a timidez, e assim por diante.

Mas não há uma fórmula definitiva para ser virtuoso, sendo algo que depende do amadurecimento e do aprendizado com as experiências, próprias e alheias. Note-se que essa lista de exemplos apresenta apenas uma definição formal, a ser concretizada, por cada um, de modo prudencial. Ser prudente é discernir todos os elementos da ação, quando, onde, como e a quem fazer algo. Ou seja, não se pode automatizar um comportamento e reiterá-lo, na obediência cega a uma regra. O homem virtuoso é aquele que se examina constantemente, buscando sempre superar-se e aumentar a excelência com que realiza as suas ações. O meio-termo virtuoso não é mediocridade e passividade. Ao contrário, a virtude não pode recair num estado inercial de continuidade irrefletida das mesmas ações de sempre. Ela é um desafio diário de autossuperação e emulação dos grandes “heróis”, cuja memória se preserva para elevar o patamar de excelência humana na prática em questão.

Pelo fato de a virtude ser uma disposição da personalidade, é fácil afirmar que há características arraigadas no caráter, numa postura condescendente de autoindulgência. Os gregos achavam que a excelência moral pressupõe a benfazeja comparação entre as pessoas no interior de uma prática social, para que cada um busque a constante autossuperação, beneficiando toda a atividade em que está envolvido. Por realizar um bem humano, que pode ser compartilhado por outras pessoas, a virtude sempre se relaciona com o bem comum, por mais restrito que sejam os seus beneficiados diretos. 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 5.março.2017.

 







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