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PALESTRAS

DIALÉTICO

PALESTRA

A catolicidade da razão: As relações entre Filosofia e Teologia

Palestra no Simpósio Teológico-Filosófico da Faculdade Católica de Belém sobre o conceito clássico de filosofia e sua abertura ao transcendente.

 

Evento: Simpósio Teológico-Filosófico da Faculdade Católica de Belém

Convite: Pe. Hélio e Pe. João Paulo Dantas

Local, data e horário: CCFC, 17.março.2017, às 8h30

Professor: Victor Sales Pinheiro

Palestra

A catolicidade da razão:

As relações entre Filosofia e Teologia

 

Introdução: Igreja como grande defensora da razão

1. Exortação magisterial ao estudo da Filosofia

            1.1. Dei Filius, Concílio Vaticano I

1.2. João Paulo II, Fides et ratio

1.3. Bento XVI, Discursos aos jovens (As cidades, as culturas e seus desafios:o CCFC e a Amazônia)

2. Fundação da Universidade

            2.1. Herdeira do Projeto intelectual da metafísica grega: conhecer tudo de tudo

                        2.1.1. Mundo é inteligível e o homem é inteligente

                        2.1.2. Physis, Kosmos, Eros

                        2.1.3. Vida de estudos (vida intelectual e espiritual)

 

I. A catolicidade da Razão

1. Razão é essencialmente católica (kata holos, “conforme o todo”), em quatro dimensões

A. Princípios

            1. é definida na sua relação ao ente como um “todo” (objeto)

                        1.1. Porque ela é uma forma de amor

            2. envolve a pessoa com um “todo” (sujeito)

                        2.1. Ninguém ama com uma só parte do seu ser

2.2. “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, toda a tua alma e toda as tuas forças e todo teu entendimento.” (Lc. 10: 27)

2.2.1. Integridade, coração indiviso

                                   2.2.2. Quando se filosofa, se filosofa por inteiro

                                   2.2.3. Redescoberta da Filosofia antiga (Hadot e Nussbaum)

B. Exercícios (dialético, “realismo” analógico)  

            3. Sempre apreende o todo como universal (essência)

4. ao mesmo tempo que apreende o todo como particular, como concreto, como substância individualizada (Aristóteles) (existência)

 

2. Afirmar a razão no seu sentido pleno e mais próprio é afirmar essas quatro dimensões

 

3. Esta catolicidade da razão impede os excessos da sua autossuficiência (racionalismo moderno) e da negação (irracionalismo pós-moderno)

3.1. A filosofia tem uma autonomia (autorregulada por suas próprias leis, e por isso a divisão institucional em dois cursos)

3.2. A virtude está no meio, na harmonia e no reconhecimento da diferença hierárquica entre Natureza e Graça

3.3. Todo não é a totalização hegeliana, mas exatamente o estabelecimento da razão no horizonte geral da realidade

4. A noção de “todo” é paradoxal

4.1. Completo, autossuficiente, fechado, não pressupõe nada além dele mesmo para o seu ser e significado (símbolo do círculo)

4.2. Por outro lado, ninguém pode estabelecer um limite a menos que já o tenha ultrapassado

Pascal: O último passo da razão é entender que infinitas coisa o transcendem

Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que foram sonhadas na tua filosofia”  

            4.3. Paradoxo cosmológico revela uma verdade metafísica: cada todo simultaneamente inclui e exclui o que está fora dele.

            4.4. Caráter analógico do ser, de que se diz de muitos modos (Aristóteles) e que permanece inexaurível na sua infinita superabundância (Aquino)

 

5. A razão é estruturalmente “extática” (êxtase)

5.1. natureza transcendente: sai de si para o mundo, e do mundo para o seu fundamento

5.2. Seu fundamento está fora de si, num ato de encontro e saída, (êxodo)

                        5.2.1. Fenomenologia: intencionalidade

5.3. Realiza a sua natureza quando transcende a si mesma

5.4. Ato de amor

 

6. Crítica modernas e pós-modernas à razão universalizante, totalizante (católica)

            6.1. Autorrestrição, autocastração: humildade ou modéstia

                        Ceticismo, relativismo – antifilosofia

            6.2. Autofechamento

Desespero do espírito compelido a fabricar os seus próprios mistérios, de jogar cada vez mais com suas próprias ilusões (Nietzsche, p. 31)

6.3. Perda do senso de realidade e de verdade, perda do senso de mistério

7. Humildade – verdade e realidade que me transcende, maior do que e do que razão

II. Definição de Filosofia (Clássica, Perene - Platão)

1. Amor à totalidade do real, ser enquanto ser (República)

1.1. O amor é sempre amor de toda a pessoa à totalidade de uma coisa

2. Busca dos fundamentos últimos e das causas primeiras.

2.1. Abertura radical ao aprofundamento

2.2. Fédon: crítica à misologia (segunda navegação)

2.3. Banquete: total doação de si

3. Dependência de algo exterior e transcendente, independente de mim

            3.1. Razão extática, relação receptiva

            3.2. Festugière: Contemplação e vida contemplativa em Platão

            3.3. Autotranscendência da beleza e da bondade

4. Maravilhamento e mistério (Teeteto)

            4.1. Autotranscendência da Filosofia:  movimento de ir além de si mesma é a sua mais perfeita realização

4.2. Abertura à Teologia, ao suprarracional (não ao irracional, cuja superabundância)

            4.2.1. Platão: ideia do bem

            4.2.2. Plotino: Uno

4.2.3. Chesterton (Ortodoxia): aquilo que torna tudo cognoscível, não se pode conhecer (Sol) – misticismo do homem comum, senso do mistério

4.2.4. Schindler: “Na medida em que a Filosofia busca a interpretação mais compreensiva da realidade, inquirindo o seu princípio fundamental compreensão, a Teologia lhe fala diretamente às suas pretensões centrais.”

             

III. Relações da Filosofia e da Teologia

1. Recíproca: História das Disciplinas

2. Intrínseca

3. Assimétrica: fé transcende a razão, como a graça transcende a natureza, mas uma não exclui a outra. Excessos do fideísmo e do racionalismo  

4. Diferentes, mas inseparáveis

            5. Importância da Filosofia para a Apologética (Teologia Fundamental)

                        5.1. Diálogo com o mundo secularizado

                        5.2. Ética e o Direito da Lei Natural – apelo exclusivo à razão

            6. Pluralidade de Filosofias e de Teologias

                        6.1. João Paulo II, “Fides et Ratio”: cita vários autores

                        6.2. MacIntyre: pluralidade interna, riqueza da tradição

            7. Dialética ascensional e descensional

7.1. Filosofia é ascensional, de baixo para cima (anabasis) – linguagem humana em busca do divino, do princípio (arché, logos)

7.2.Teologia é descensional, de cima para baixo (katábase) – linguagem divina traduzida pelo humano  

8. Relação circular (não linear)

 

IV. Vida “contemplativa” (teorética) – Sertillanges (Vida intelectual)

1. intelectual – razão - natureza

2. espiritual – fé - graça

           

 

V. Conclusão: Exortação de São Josemaria Escrivá (Sulco, 428)

 “Para o apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração” (Caminho)

“Para ti, que desejas adquirir uma mentalidade católica, universal, transcrevo algumas características:
- amplidão de horizontes e aprofundamento enérgico do que é perenemente vivo na ortodoxia católica;
- esforço reto e são (frivolidade, nunca!) por renovar as doutrinas típicas do pensamento tradicional, na filosofia e na interpretação da História;
- cuidadosa atenção às orientações da ciência e do pensamento contemporâneos;
- e uma atitude positiva e aberta para com a transformação atual das estruturas sociais e das formas de vida.” (Sulco, 428)

 

VI. Bibliografia

ESCRIVÁ, J. Caminho. SP: Quadrante.

_____. Forja. SP: Quadrante.

_____. Questões atuais do cristianismo. SP: Quadrante.

GILSON, E. O filósofo e o teólogo. SP: Paulus.

PEPERZAK, A. Philosophy between Faith and theology. Indiana: Notre Dame Press.

SERTILLANGES, A.-G. A vida intelectual. SP: É Realizações.

SCHINDLER, D. The catholicity of reason. Michigan: Eerdmans.

 

 

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